Metafísica de Carrasco: pré-lançamento do livro de Vitor Cei

Friedrich Nietzsche, em Crepúsculo dos Ídolos (VI, §7), avaliou a história da filosofia ocidental como uma metafísica de carrasco, que interpreta a existência a partir das categorias de culpa e expiação da culpa, o que teria transformado o mundo em um vale de lágrimas promovido por “teólogos que continuam a infectar a inocência do vir-a-ser com noções de ‘punição’ e ‘culpa’, a partir do conceito de ‘ordem moral do mundo’”. O Cristianismo, escreve Nietzsche, é “uma metafísica de carrasco”. No Brasil contemporâneo, isso encontrou um terreno fértil entre os “cristétrico-fascistas”, naturalizando-se como forma de governo entre 2019 e 2022 e como sensibilidade social de 2018 até hoje. O resultado é que o carrasco se move da exceção para o princípio que rege as esferas religiosa, política, econômica, social e cultural.

O romance de Vitor Cei propõe essa chave de leitura para a história brasileira. O carrasco, na narrativa, não é apenas um indivíduo (o ex-presidente genocida, preso na Papuda), mas um tipo histórico e psíquico que encarna a lógica de violência que atravessa a formação do país: da escravidão colonial, passando pelas chacinas da necropolítica, até o genocídio na pandemia de covid-19. Se a história brasileira opera sob essa metafísica, a tarefa é clara: precisamos compreender o país a partir daquilo que ele insiste em perpetuar e, através da narrativa, buscar ativamente fissurar a metafísica que nos molda. Segundo Jacques Fux, no paratexto da contracapa:

Jorge Luis Borges e Ricardo Piglia sugerem que a ficção tem um poder muito maior do que a “realidade” – do que o fato ou a ação em si – já que ela não se prende à mera imitação ou cópia, mas concebe universos e engendramentos que desvelam a lógica, a estrutura e as veredas recalcadas. Neste intricado Metafísica de carrasco, Vitor Cei nos mostra como essa ficção é capaz de transcender e elucidar uma realidade que foi vivida e encarada de forma paradoxal por grupos extremistas. Um romance que amplia a nossa compreensão e o nosso absurdo diante da história, da política e da pandemia. 

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