Gaspar Paz: "Vitor Cei e a acuidade política do riso"

Como diz a canção, “a história se repete, mas a força deixa a história mal contada”. Nesta prosa experimental de estreia, Vitor Cei desdiz a fórmula ao distopizar e repisar a história brasileira recente para reescrevê-la a contrapelo (des)patologizando-a, decriptando seus segredos mais atrozes. Em tempos de posse de armas e de políticas de inimizade, Cei desengana as apostas do jogo munindo-se de um riso sarcástico-dialético-nietzschiano-machadiano. Um riso que nutre as audaciosas indagações de sua literaluta, sua resistência ativa, seu modo de cismar (logo, insistir) na contrainformação, princípio-esperança num mundo hipnocrático de publicidade monopolista.
Metafísica de carrasco é um livro inquietante, perturbador, tragicômico e surpreendente. Se a metafísica é – como já nos alertou um poeta – “a sensação de estar maldisposto”, Vitor Cei remexe, nessas páginas, as entranhas mais abjetas dessa indisposição, eivada por uma construção teológica do poder e uma visão consumista, telemartirizada e espetacularizadora da política. Nessa dupla enganação forjam-se os símbolos dos mitos fundadores brasileiros, fiadores do verde-amarelismo e da estrutura autoritária da violência integralista-fascista.
Depois de estudar e reestudar a conjuntura política e sentir na pele os percalços da dura realidade, o autor reativa seu estranhamento: “[como] continuar vivendo como se nada tivesse acontecido?”. Que futuro esperar diante da servidão voluntária, da passividade coletiva e da percepção acrítica?
As respostas encetadas no livro escancaram nossa miséria e, na esteira de Raul Seixas, põem a nu uma “grande piada... um tanto perigosa”. É assim que o cômico e trágico vão se retraçando por meio de colagens de notícias (descortino das pseudo-informações hipocritamente normalizadas pela mídia), intertextos (de Maiakovski, Belchior, Machado de Assis, Raul Seixas...), cybercharges (de Marcio Vaccari), diálogos com escritoras/es (Junia Zaidan, Hilda Hilst, Caê Guimarães, Waldo Motta), ficções, confissões, memórias, poemas, ultrajes, dramaturgias, ironias.
Na distribuição dos capítulos, a porta de entrada é a “Cadeia”, gracilianamente tecida pelas instituições governamentais, quiçá uma oportunidade ao personagem principal, condenado a 27 anos e 3 meses de prisão. [...] como uma marca singular deste livro, é importante sublinhar a sagacidade das cybercharges de Marcio Vaccari, que, modulando uma linguagem desafiadora, inverte a percepção ilusória das imagens, mostrando de súbito (e sem disfarces) a rudeza e a violência dispostas nas cenas. Metafísica de carrasco mexe com nossos sentimentos, nos faz rir do patético, mas é principalmente um livro para conhecer, rememorar e enfrentar os acontecimentos mais cruciais da política brasileira [...]
Leia mais no prefácio de Gaspar Paz no romance Metafísica de Carrasco, com texto de Vitor Cei e ilustrações de Marcio Vaccari.
